A pergunta sobre a necessidade de Toy Story 5 acompanha o filme desde antes da estreia. Depois de Toy Story 3 construir uma despedida que pareceu definitiva e Toy Story 4 oferecer outro encerramento, voltar novamente poderia soar como simples incapacidade de deixar uma propriedade valiosa descansar.
Andrew Stanton encontra uma saída inteligente porque transforma justamente essa sensação de obsolescência em tema.
Lilypad, o tablet que entra na vida de Bonnie, não funciona apenas como antagonista tecnológica. A personagem representa uma transformação muito maior na infância, em que brinquedos físicos continuam existindo, mas passaram a disputar atenção com dispositivos capazes de oferecer jogos, vídeos, comunicação e estímulos praticamente infinitos dentro da mesma tela.
A ameaça, portanto, não é que Bonnie deixou de amar seus brinquedos.
É que amor e necessidade já não significam a mesma coisa.
Toy Story sempre teve medo de ser esquecido
Desde o primeiro filme, Woody vive com uma ansiedade que nunca desapareceu completamente. Buzz chega e ameaça sua posição, Andy cresce, novos brinquedos aparecem, donos mudam e a franquia retorna continuamente à pergunta sobre o que acontece com um objeto criado para ser amado quando a pessoa que o ama segue adiante.
Lilypad atualiza esse medo sem precisar inventá-lo.
É por isso que o conflito funciona. A Pixar não está subitamente tentando produzir um discurso contra tecnologia, porque transformar uma tela em vilã moral seria pequeno demais para uma série que sempre compreendeu mudança com bastante delicadeza.
O interessante está em perceber que a infância mudou.
Brincar não desapareceu, mas se reorganizou, e os brinquedos precisam confrontar a possibilidade de que aquilo que entendiam como sua função talvez não ocupe mais o mesmo lugar.
A Pixar olha para a própria idade
Existe ainda uma leitura inevitável sobre o próprio estúdio.
Toy Story completou mais de três décadas como referência da animação digital, e seus personagens agora convivem com espectadores que assistiram ao primeiro filme quando crianças e levam os próprios filhos ao cinema.
Ao falar sobre objetos tentando descobrir se ainda possuem espaço numa cultura transformada pela tecnologia, a Pixar também parece falar sobre uma franquia antiga procurando justificar sua presença num mercado muito diferente daquele de 1995.
A recepção forte, acima de 90% tanto entre críticos quanto público, sugere que a resposta encontrada funcionou.
Toy Story 5 talvez não precisasse existir.
Mas filmes não precisam provar necessidade antes de serem feitos.
Precisam encontrar alguma coisa que valha a pena dizer quando chegam.
Ao perceber que o medo de ficar para trás continua sendo parte da experiência de crescer, envelhecer e amar alguma coisa, a Pixar encontra novamente um motivo para abrir aquela caixa de brinquedos.

Entre para comentar e avaliar
Crie sua conta para participar da comunidade do Fora do Quadro.
Entrar