Milly Alcock não demora muito para deixar claro qual Supergirl está interessada em interpretar.
Sua Kara Zor-El não chega carregando a mesma luminosidade associada ao Superman, e tampouco parece particularmente preocupada em corresponder à expectativa de quem imagina encontrar apenas uma versão feminina do herói. Há raiva, impulsividade e um tipo de luto que altera a maneira como ela se relaciona com poder.
Essa diferença deveria ser o suficiente para sustentar um filme inteiro.
Em determinados momentos, é.
Craig Gillespie encontra uma atriz confortável com a contradição e permite que Kara seja engraçada sem transformar cada frase em piada, desagradável sem precisar imediatamente pedir desculpas e vulnerável sem reduzir sua personalidade ao trauma.
O problema começa quando Supergirl parece confiar menos nela do que deveria.
Kara é mais interessante quando o universo para de explicá-la
O roteiro de Ana Nogueira adapta elementos associados à versão contemporânea da personagem e coloca Kara numa jornada interplanetária de vingança e justiça. Ruthye, Krem e a presença de Lobo expandem o universo ao redor dela, mas também criam a obrigação de administrar mitologia, ação e construção de franquia.
Jason Momoa parece ter nascido preparado para interpretar Lobo e entende perfeitamente que o personagem funciona através do excesso. Sua presença traz energia, embora exista constantemente a impressão de que parte dessas decisões está conversando também com filmes futuros.
Milly Alcock não precisa desse tipo de preparação. Quando Supergirl simplesmente deixa Kara existir, o filme ganha personalidade.
A questão é que essas cenas convivem com uma estrutura muito mais familiar de blockbuster, e existe uma tensão estranha entre uma protagonista que parece pedir desordem e uma narrativa empenhada em colocar tudo no lugar certo.
Um universo novo não precisa repetir hábitos antigos
James Gunn e Peter Safran construíram o novo DCU prometendo filmes com identidades próprias, e Supergirl possui elementos suficientes para cumprir essa ideia. Gillespie tem experiência com personagens difíceis e mulheres que não precisam ser organizadas para agradar, como demonstrou em Eu, Tonya e Cruella.
É justamente por isso que a convencionalidade de parte do filme frustra.
Não se trata de exigir que toda adaptação de quadrinhos reinvente cinema, mas de perceber quando o material já oferece algo diferente e ainda assim acaba reconduzido para uma forma conhecida.
A resposta ao filme foi dividida, com a crítica mais fria do que o público. Essa distância combina com uma produção que possui uma personagem central forte, ação competente e momentos genuinamente divertidos, mas deixa a sensação de que havia outra versão mais arriscada escondida dentro dela.
Supergirl não precisava ser menos complicada.
Precisava de um filme disposto a acompanhar sua complicação até o fim.

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