Quando Se Eu Fosse Você estreou em 2006, a brincadeira da troca de corpos carregava uma lógica muito específica.

Cláudio e Helena precisavam literalmente ocupar o corpo um do outro para perceber quanto da vida conjugal era sustentada por hábitos, expectativas e ideias diferentes sobre aquilo que homens e mulheres deveriam fazer.

Vinte anos depois, repetir exatamente a mesma piada seria insuficiente.

Se Eu Fosse Você 3 parece consciente disso.

Glória Pires e Tony Ramos retornam, mas Bia, filha do casal interpretada por Cleo, agora está adulta e casada com Aquiles, vivido por Rafael Infante. É a geração seguinte que passa a enfrentar a troca de corpos que definiu os dois primeiros filmes.

Passar a franquia adiante sem apagar quem veio antes

Anita Barbosa assume a direção, Leandro Soares escreve o roteiro e Daniel Filho, diretor dos filmes originais, participa como supervisor artístico.

É uma combinação que revela o desafio do projeto.

Se o filme se apoiar demais em Cláudio e Helena, corre o risco de produzir apenas nostalgia. Se afastá-los demais, perde justamente a relação que transformou Se Eu Fosse Você em uma das comédias brasileiras mais reconhecíveis dos anos 2000.

Cleo funciona como ponte natural porque Bia sempre esteve dentro daquela família.

Transformá-la em protagonista permite que a continuação não precise inventar uma nova conexão com o passado.

A mesma premissa num Brasil diferente

A parte realmente interessante é descobrir se a troca de corpos ainda provoca as mesmas perguntas.

Discussões sobre gênero, casamento, trabalho e divisão doméstica mudaram profundamente desde 2006. Aquilo que o primeiro filme tratava como choque entre “mundo masculino” e “mundo feminino” inevitavelmente ganha outro significado duas décadas depois.

Essa atualização não precisa transformar a comédia em palestra.

Precisa apenas reconhecer que repetir as mesmas conclusões seria menos interessante do que usar a mesma fantasia para observar relações novas.

O terceiro filme chega aos cinemas em 8 de outubro depois de uma pré-estreia no Festival do Rio, exatamente vinte anos após o início da franquia.

A melhor continuação possível não seria aquela que reproduzisse a sensação de 2006.

Seria a que entendesse por que já não podemos olhar para 2006 da mesma maneira.