Resident Evil passou décadas tentando descobrir qual deveria ser sua identidade no cinema. A nova adaptação dirigida por Zach Cregger escolhe um caminho aparentemente contraditório: cria uma história original, apresenta um novo protagonista e, justamente por isso, consegue se aproximar da lógica que tornou os jogos tão influentes.

Lançado no Brasil em 17 de setembro, o filme acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um entregador de medicamentos que viaja até o Hospital Geral de Raccoon City e acaba no centro de uma noite marcada por criaturas, violência e um colapso que ele não consegue compreender completamente. Cregger dirige e divide o roteiro com Shay Hatten.

A escolha de colocar alguém comum no centro da história muda a relação do público com aquele universo. Bryan não entra em cena como soldado altamente treinado, agente secreto ou especialista em combater monstros. Ele precisa compreender o perigo enquanto tenta sobreviver a ele.

Essa diferença aproxima o filme de uma das sensações fundamentais de Resident Evil: vulnerabilidade.

Antes das criaturas, vem o medo de gastar a última bala

Em uma entrevista concedida ao PlayStation antes da estreia, Cregger explicou que sua primeira grande experiência com a franquia aconteceu através de Resident Evil 2. O diretor destacou algo aparentemente simples, mas essencial para entender seu filme: a necessidade de administrar recursos.

Nos jogos clássicos, uma caixa de munição não é apenas um objeto encontrado num cenário. Ela é uma decisão. Gastar demais agora significa talvez não ter o suficiente depois. Voltar por um corredor pode ser mais perigoso do que seguir adiante, mas seguir adiante significa entrar em um espaço desconhecido. Cregger citou especificamente essa consciência constante sobre balas e itens de cura como parte do que o marcou na série.

É uma lógica extremamente difícil de transportar para o cinema porque o espectador não toma essas decisões.

A solução está em transformar a sensação em linguagem.

O novo Resident Evil faz isso quando trata espaço como ameaça. Um corredor, uma porta ou uma sala vazia precisam carregar expectativa suficiente para que o público comece a observar cada detalhe da imagem. O medo deixa de depender exclusivamente da criatura que aparece e passa a existir também na possibilidade de que alguma coisa esteja escondida fora do quadro.

Esse tipo de construção aproxima o terror de Resident Evil daquilo que videogames fazem de maneira tão eficiente: transformar curiosidade em risco.

Uma adaptação pode ser fiel sem contar a mesma história

Talvez a discussão mais interessante ao redor do filme esteja justamente na palavra “fidelidade”.

Durante muito tempo, adaptações de videogame foram avaliadas pelo número de elementos reconhecíveis que conseguiam colocar na tela. Personagens, roupas, armas, cenários e frases se transformavam numa espécie de lista de conferência para os fãs.

Cregger segue por outra direção.

O novo filme existe no universo da franquia, mas acompanha uma história original, e isso permite que Resident Evil pare de funcionar como exercício de reprodução. O diretor não precisa gastar metade da narrativa explicando novamente acontecimentos que boa parte do público já conhece.

Esse espaço pode ser usado para recuperar ritmo, imprevisibilidade e medo.

É significativo que a crítica tenha respondido tão bem. O filme atingiu cerca de 96% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes e se tornou a única adaptação live action da franquia a receber o selo Certified Fresh da plataforma, além de ocupar o primeiro lugar no ranking de filmes de Resident Evil organizado pelo agregador.

A recepção não significa apenas que Resident Evil finalmente encontrou um filme considerado “bom”. Ela sugere que talvez Hollywood tenha passado tempo demais procurando fidelidade no lugar errado.

O espírito do jogo está no ritmo

Cregger também vem de um momento particularmente interessante da carreira. Depois de Barbarian e Weapons, seu nome passou a estar associado a um tipo de terror capaz de combinar tensão, humor e mudanças bruscas de energia.

Resident Evil permite usar essas características dentro de uma propriedade conhecida sem deixar a franquia completamente subordinada ao estilo do diretor.

Austin Abrams se torna peça importante nesse equilíbrio porque Bryan pode reagir ao absurdo de maneira humana. O humor não elimina o medo quando surge de alguém que percebe o quão ruim é a própria situação.

Isso ajuda o filme a evitar um problema frequente em adaptações modernas, nas quais personagens parecem constantemente conscientes de que estão dentro de uma grande franquia.

Resident Evil funciona melhor quando ninguém tem tempo para admirar Resident Evil.

Eles estão ocupados tentando sobreviver.

Essa talvez seja a maior prova de que Cregger compreendeu aquilo que estava adaptando. A franquia nunca precisou que o público reconhecesse cada referência. Precisava fazer com que alguém hesitasse antes de abrir a próxima porta.