Imagine abrir um aplicativo de namoro e encontrar o rosto de alguém que desapareceu de sua vida onze anos atrás.

Não alguém com quem você perdeu contato.

Alguém que simplesmente sumiu.

Essa é uma daquelas premissas de Harlan Coben que fazem praticamente todo o trabalho antes da primeira cena.

Kat Donovan, interpretada por Rosalind Eleazar, é uma detetive especializada em desaparecimentos cujo próprio passado permanece marcado pelo sumiço do noivo, Josh. Quando o rosto dele aparece num aplicativo, aquilo que poderia parecer uma coincidência absurda imediatamente conecta duas partes da vida de Kat que deveriam permanecer separadas: investigação e memória.

Que Falta Você Me Faz foi lançada como minissérie de cinco episódios e transfere para o Reino Unido uma história originalmente ambientada nos Estados Unidos, repetindo um procedimento já comum nas adaptações de Coben. Richard Armitage, Ashley Walters e Lenny Henry integram o elenco.

A partir daí, a série começa a demonstrar com bastante clareza por que Coben funciona tão bem no streaming.

Cinco episódios são praticamente uma armadilha

Existe diferença entre escrever uma história intrigante e construir uma história impossível de abandonar.

Coben parece especialmente interessado na segunda opção.

Cada episódio de Que Falta Você Me Faz carrega informação suficiente para produzir a sensação de avanço, mas raramente entrega algo sem simultaneamente criar outro problema. O espectador termina uma resposta já olhando para a próxima pergunta.

É uma lógica muito semelhante à do romance de aeroporto, expressão que às vezes é utilizada com certo desprezo, embora exista enorme habilidade em escrever alguma coisa capaz de fazer alguém perder uma parada de metrô porque decidiu ler mais dez páginas.

A Netflix encontrou nisso um produto quase perfeito.

Cinco episódios são poucos o suficiente para parecer uma decisão razoável numa noite livre e longos o suficiente para construir a sensação de que terminar a série naquele mesmo fim de semana não seria nenhum absurdo.

Harlan Coben chegou a brincar com essa relação ao dizer que queria que o espectador ligasse a série no primeiro dia do ano para assistir “só um episódio” e terminasse engolindo todos eles.

Não é apenas marketing.

É praticamente descrição de projeto.

O problema é que começamos a enxergar a máquina

Depois de várias adaptações, determinados movimentos se tornam reconhecíveis.

A família aparentemente respeitável talvez não seja tão respeitável, a pessoa que parece secundária provavelmente possui informação importante, alguma tragédia antiga ainda não terminou e quase ninguém contou a versão completa dos acontecimentos.

Isso não significa que seja possível prever cada solução.

Significa que aprendemos a desconfiar do método.

Que Falta Você Me Faz sofre especialmente com isso porque sua premissa inicial é muito forte. A ideia de Kat encontrar Josh depois de onze anos possui um potencial emocional que poderia sustentar uma investigação mais contida.

A série, no entanto, amplia progressivamente o número de mistérios e conexões, até que aquilo que começou como uma ausência íntima precisa dividir espaço com uma estrutura consideravelmente maior.

Rosalind Eleazar é fundamental para preservar alguma unidade porque Kat nunca parece encarar tudo aquilo apenas como quebra cabeça.

Há mágoa.

Existe raiva.

Existe também aquela necessidade profundamente humana de obter uma explicação mesmo quando a explicação talvez seja muito pior do que permanecer sem resposta.

Ser viciante não é necessariamente ser profundo

A recepção foi bastante dividida. Que Falta Você Me Faz registra cerca de 50% de aprovação entre críticos e 31% entre o público no Rotten Tomatoes.

Esses números não impedem a série de cumprir aquilo que promete.

Talvez apenas revelem uma diferença cada vez mais importante dentro das adaptações de Coben.

Uma narrativa pode ser extremamente eficiente em fazer alguém continuar assistindo e ainda assim não permanecer muito tempo depois que termina.

Que Falta Você Me Faz possui uma excelente protagonista, uma premissa imediatamente sedutora e cinco episódios montados com precisão suficiente para transformar curiosidade em consumo.

É televisão muito competente na administração da atenção.

O problema é que, depois de tantas adaptações, começamos a perceber que a verdadeira grande reviravolta de Harlan Coben talvez já não esteja dentro da história.

Está no fato de continuarmos apertando “próximo episódio” mesmo quando sabemos exatamente o tipo de história que estamos prestes a receber.