O Inocente começa com uma situação que poderia pertencer a qualquer história sobre uma segunda chance. Mateo Vidal, interpretado por Mario Casas, envolve-se numa briga, provoca acidentalmente a morte de um homem e acaba condenado à prisão. Depois de cumprir a pena, tenta reconstruir a vida, encontra o amor e acredita estar finalmente distante do acontecimento que o definiu durante anos. O problema é que algumas histórias não permitem que o passado permaneça no lugar em que foi deixado.

A adaptação espanhola do romance de Harlan Coben, lançada em 2021, encontra seu diferencial na maneira como distribui esse passado entre diferentes personagens. Oriol Paulo, diretor de Um Contratempo, entende que um mistério pode ganhar outra dimensão quando deixa de funcionar apenas como pergunta e passa a ser observado pelas consequências que provoca na vida de quem participa dele.

A culpa como identidade

Mario Casas interpreta Mateo de forma contida, preservando uma tensão que faz sentido para um homem acostumado a perceber o próprio comportamento através de um erro irreversível. Sua tentativa de construir uma vida comum nunca parece completamente desligada da consciência de que essa normalidade pode desaparecer.

O relacionamento com Olivia, vivida por Aura Garrido, representa a possibilidade de um futuro que não dependa exclusivamente de punição, mas a série encontra interesse justamente no desconforto produzido quando duas pessoas acreditam conhecer suficientemente o passado uma da outra.

Em Coben, segredos costumam existir para provocar surpresa. Em O Inocente, também funcionam como instrumentos de transformação. Uma informação escondida não altera apenas aquilo que o espectador sabe sobre determinada pessoa, mas coloca em questão a identidade que essa pessoa construiu para continuar vivendo.

Essa diferença torna a série mais densa do que parte das adaptações do escritor.

Oriol Paulo sabe administrar perspectiva

Uma das escolhas mais eficientes está na maneira como os episódios deslocam o centro de atenção. Personagens que inicialmente parecem ocupar posições secundárias recebem espaço para contar suas trajetórias, e informações anteriormente observadas através de Mateo passam a adquirir novos significados.

O recurso poderia facilmente se transformar em truque, especialmente numa história tão interessada em reorganizar a percepção do público. Paulo consegue, durante boa parte da temporada, preservar o equilíbrio porque as revelações geralmente chegam acompanhadas por contexto emocional.

A fotografia também participa dessa construção. A série trabalha espaços urbanos, ambientes fechados e uma tensão visual que ajuda a distinguir as diferentes camadas da narrativa sem abandonar a atmosfera de thriller.

Nem tudo funciona com a mesma precisão. A quantidade de acontecimentos e conexões exige alguma generosidade diante de coincidências, enquanto certos desdobramentos parecem prolongar a narrativa além do necessário. Ainda assim, a direção consegue preservar uma relação entre forma e história que frequentemente desaparece quando adaptações de suspense ficam excessivamente preocupadas em surpreender.

Uma das melhores respostas à fórmula Coben

O Inocente alcançou 100% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, considerando sete avaliações contabilizadas, e uma recepção positiva de aproximadamente 78% entre o público. A amostra crítica é pequena, mas ajuda a demonstrar como a produção se destacou dentro da coleção.

O mérito não está simplesmente em possuir mais mistérios ou um final mais elaborado. Está na disposição de observar personagens como pessoas que continuam existindo entre uma revelação e outra.

O Inocente compreende que descobrir a verdade não significa necessariamente se libertar dela. Há acontecimentos que permanecem mesmo depois de explicados, e talvez seja essa percepção que torne a série tão interessante. Seu melhor suspense não está apenas na possibilidade de que Mateo descubra mais um segredo, mas na dúvida sobre o que ainda será possível reconstruir quando ele finalmente souber tudo.