Durante décadas, O Exorcista permaneceu como uma referência difícil de alcançar dentro do cinema de terror. O filme de William Friedkin, lançado em 1973, construiu uma relação particularmente desconfortável entre fé, sofrimento e a possibilidade de que determinadas experiências simplesmente escapem à compreensão humana. Suas imagens mais conhecidas atravessaram gerações, mas boa parte de sua força estava justamente na maneira como obrigava personagens comuns a confrontar situações para as quais não possuíam respostas.
A franquia continuou existindo, naturalmente, embora nem todas as tentativas de recuperar aquela atmosfera tenham compreendido exatamente o que havia de tão perturbador no original.
Mike Flanagan parece interessado em procurar uma resposta diferente.
O novo filme, intitulado O Exorcista: Mártires, ganhou seu primeiro trailer completo na última semana, apresentando Scarlett Johansson como Julie Miller, uma detetive de Nova York que precisa revisitar uma investigação traumática depois que uma nova sequência de assassinatos sugere a presença de alguma coisa muito mais antiga.
Treze anos antes dos acontecimentos principais, Julie participou da captura de um assassino ligado a rituais satânicos conhecido como Father Sunday, interpretado por John Leguizamo. A investigação transformou a policial numa figura reconhecida, mas a aparente conclusão daquele caso deixa de oferecer qualquer tranquilidade quando novos crimes começam a surgir.
O terror encontra o cinema policial
A escolha de combinar investigação criminal e horror religioso oferece possibilidades interessantes para Flanagan, especialmente porque o diretor já demonstrou preferência por histórias em que acontecimentos sobrenaturais interferem em traumas humanos muito anteriores à manifestação de qualquer fantasma.
Em produções como A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia-Noite, a experiência do medo costuma nascer de relações familiares, culpa, fé e acontecimentos que permanecem emocionalmente presentes mesmo depois de muito tempo. O sobrenatural amplia essas situações, mas raramente é o único elemento responsável por torná-las perturbadoras.
Em Mártires, essa abordagem ganha outra dimensão através da investigação policial. Julie precisa compreender acontecimentos aparentemente ligados a assassinos de diferentes períodos, enquanto sua própria relação com o caso anterior transforma a busca por respostas numa experiência pessoal.
O elenco inclui Chiwetel Ejiofor como um capelão que ouviu a última confissão de Father Sunday, além de Sasha Calle, Diane Lane, Laurence Fishburne e Jacobi Jupe.
Scarlett Johansson diante de uma personagem marcada pelo passado
A presença de Johansson também ajuda a diferenciar o projeto das tentativas recentes de recuperar a franquia.
A atriz construiu boa parte de sua carreira alternando produções comerciais e personagens atravessadas por conflitos internos, algo que pode funcionar especialmente bem numa história em que a protagonista possui uma identidade profissional construída sobre uma investigação que talvez nunca tenha compreendido completamente.
Julie não parece ocupar o papel tradicional de uma pessoa inocente que descobre a existência do mal pela primeira vez. Ela já enfrentou uma situação extrema e acreditou ter encontrado uma maneira de seguir adiante.
O retorno daquele passado cria um conflito diferente, porque o medo também está relacionado à possibilidade de que aquilo que considerávamos resolvido nunca tenha terminado.
O desafio de continuar um clássico
Flanagan afirmou publicamente que sua proposta não funciona como continuação direta de O Exorcista: O Devoto, produção de 2023 que não conseguiu estabelecer o caminho comercial pretendido pela Universal e pela Blumhouse.
A nova história procura funcionar de maneira independente, preservando elementos essenciais do universo criado por William Peter Blatty sem exigir que o espectador acompanhe todas as produções anteriores.
É uma decisão importante.
O maior problema de franquias antigas talvez não seja continuar produzindo sequências, mas acreditar que reconhecimento de marca pode substituir uma proposta cinematográfica consistente.
O Exorcista: Mártires tem estreia marcada para 11 de março de 2027 no Brasil, com lançamento norte-americano no dia seguinte. O trailer está disponível publicamente, mas o filme ainda não estreou, portanto qualquer julgamento definitivo seria precipitado.
Por enquanto, existe uma razão interessante para acompanhar esse retorno. Flanagan parece compreender que o terror mais persistente não depende necessariamente da quantidade de sangue ou de imagens chocantes, mas da sensação de que algumas experiências podem destruir a maneira como alguém compreende o próprio mundo.
E talvez seja justamente esse desconforto que O Exorcista precisa recuperar.

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