Quando O Diabo Veste Prada chegou aos cinemas em 2006, Runway representava uma espécie de poder cultural que parecia quase absoluto.
Uma revista podia decidir qual estilista seria observado, qual tendência ganharia legitimidade e quem teria acesso a um universo em que moda, celebridade, publicidade e jornalismo se encontravam.
Vinte anos depois, Miranda Priestly continua reconhecível.
A indústria ao redor dela, não.
É essa mudança que torna O Diabo Veste Prada 2 mais interessante do que a simples reunião de Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci.
Miranda continua igual porque o mundo deixou de ser
A sequência poderia ter escolhido uma nostalgia confortável, colocando Andy novamente diante da antiga chefe e transformando cada retorno em aplauso.
Há nostalgia, evidentemente. Seria artificial fingir que não existe prazer em voltar aos corredores de Runway, reencontrar Nigel ou observar Meryl Streep entrar em cena como alguém que nunca deixou aquele papel completamente para trás.
Mas o filme encontra algo melhor quando percebe que autoridade cultural já não funciona da mesma forma.
Revistas continuam importantes, mas dividem atenção com redes sociais, creators, plataformas, marcas capazes de conversar diretamente com consumidores e algoritmos que transformaram curadoria em distribuição automatizada.
O antigo porteiro do gosto perdeu exclusividade.
Fashion continua sendo poder, mas o poder mudou de endereço
Essa transformação afeta Miranda porque sua autoridade nunca veio apenas de dinheiro.
Ela sabia mais, via antes e possuía acesso ao que os outros ainda desejavam conhecer. Quando informação e imagem circulam instantaneamente, exclusividade se torna mais difícil de manter.
O filme não precisa declarar morte ao jornalismo de moda para reconhecer isso.
Ao contrário, talvez sua melhor pergunta seja justamente sobre aquilo que permanece quando velocidade deixa de ser vantagem.
Repertório, edição, contexto, capacidade de olhar para uma coleção e perceber o que existe além da tendência ainda possuem valor, mesmo que já não sejam suficientes para sustentar o modelo de negócios de vinte anos atrás.
O Diabo Veste Prada 2 recebeu uma resposta majoritariamente positiva, com aprovação crítica próxima de 80%, e isso tem relação com a capacidade de revisitar personagens queridos sem fingir que duas décadas não passaram.
A roupa continua linda.
Miranda continua Miranda.
Só que o mundo que um dia precisava ser aceito por Runway agora aprendeu a publicar sozinho.

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