O Convite começa com um casamento cansado e uma situação aparentemente banal: receber os vizinhos para jantar.

Olivia Wilde entende que não precisa de muito mais.

Joe e Angela vivem uma relação que não parece necessariamente destruída, mas carrega aquele tipo de desgaste mais complicado de resolver porque não nasce de uma única grande crise. Seth Rogen e Wilde interpretam um casal que ainda conhece os mecanismos do outro, ainda sabe provocar uma risada e ainda compartilha uma vida, mas perdeu alguma coisa no caminho.

A entrada de Piña e Hawk, vividos por Penélope Cruz e Edward Norton, altera a temperatura daquela relação porque coloca diante dos protagonistas outro casal, outra dinâmica e, inevitavelmente, outras possibilidades.

O resultado poderia facilmente virar uma comédia sobre pessoas bonitas tomando vinho e tomando decisões ruins. O roteiro de Rashida Jones e Will McCormack é mais atento do que isso.

Quando a intimidade se transforma em constrangimento

Há um prazer específico em assistir a atores muito bons presos numa sala com diálogos capazes de fazer o trabalho.

Rogen é particularmente eficiente porque sua persona cômica sempre carregou uma espécie de desorganização emocional que combina com Joe. Wilde conhece o próprio tempo cômico, mas não transforma Angela apenas na parte séria da relação. Penélope Cruz entra com uma energia que altera imediatamente o equilíbrio do grupo, enquanto Norton entende perfeitamente o desconforto de um homem que talvez esteja confortável demais consigo mesmo.

Boa parte do humor nasce de situações em que ninguém diz exatamente aquilo que gostaria de dizer.

Uma frase começa como brincadeira, encontra um ressentimento antigo e termina num silêncio um pouco mais longo do que deveria. Uma pergunta aparentemente inocente abre um assunto que um casal estava evitando há meses. Aos poucos, o jantar vira uma espécie de laboratório improvisado sobre desejo, rotina, fidelidade e as fantasias que sobrevivem dentro de relações longas.

O filme é engraçado justamente porque reconhece como essas conversas costumam ser.

Olivia Wilde confia no elenco

Depois de Booksmart e Don't Worry Darling, Wilde volta a demonstrar interesse por personagens que negociam versões diferentes de si mesmos diante de outras pessoas. Aqui, porém, o dispositivo é menor e, por isso mesmo, mais preciso.

A câmera não precisa transformar tudo em espetáculo. O espaço doméstico vai ficando progressivamente mais apertado conforme a conversa avança, e a montagem entende que muitas vezes a melhor reação está no personagem que não está falando.

A resposta da crítica foi excepcional, com aprovação na casa dos 90% e elogios particularmente fortes ao elenco e ao roteiro.

O Convite merece essa recepção porque é uma comédia adulta que realmente trata seus personagens como adultos. Ninguém precisa ser completamente inocente ou completamente culpado para que uma relação dê errado, e ninguém precisa descobrir uma grande verdade para perceber que já estava evitando uma verdade menor há muito tempo.

No fim, o jantar é apenas a desculpa.

O que realmente está à mesa são quatro pessoas tentando descobrir se ainda conseguem reconhecer a vida que escolheram.