Existe uma dificuldade particular em produzir documentários sobre pessoas cuja imagem pública foi construída através de informações falsas ou enganosas.
Quando o personagem central possui uma relação amplamente documentada com a manipulação da própria reputação, cada entrevista passa a carregar uma pergunta inevitável: quanto daquilo que estamos observando corresponde a uma experiência genuína e quanto pertence à imagem que essa pessoa deseja construir diante das câmeras?
Nathan Fielder e Lance Oppenheim parecem interessados justamente nesse território em You Can See Everything, novo documentário distribuído pela A24.
A produção acompanha Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, empresa de tecnologia médica que ganhou projeção internacional através de promessas sobre exames de sangue e posteriormente se tornou centro de um grande caso de fraude.
Holmes foi condenada nos Estados Unidos por crimes relacionados à fraude contra investidores.
O documentário começou a ser realizado pouco antes de sua entrada na prisão, quando ela permitiu que os cineastas acompanhassem parte de sua rotina pessoal.
A câmera como parte do acontecimento
Fielder construiu uma trajetória bastante particular através de produções interessadas na maneira como pessoas se comportam quando sabem que estão sendo observadas.
Em Nathan for You e The Rehearsal, a relação entre realidade, encenação e comportamento humano ocupa uma posição central.
Sua participação em You Can See Everything torna especialmente interessante a decisão de acompanhar uma pessoa cuja imagem pública já foi objeto de investigações, entrevistas e interpretações bastante diferentes.
O documentário não depende apenas da possibilidade de revelar informações novas sobre a Theranos.
Sua proposta também envolve observar o próprio processo de filmagem, incluindo a maneira como cineastas e personagens negociam aquilo que será mostrado.
A intimidade também pode ser uma forma de controle
A presença de câmeras dentro da casa de Holmes oferece acesso a situações que normalmente permaneceriam privadas, mas esse acesso não elimina automaticamente a possibilidade de construção de imagem.
Pessoas podem se comportar de maneira diferente quando estão sendo filmadas, especialmente quando possuem consciência das consequências públicas de suas palavras e atitudes.
Essa percepção não transforma toda representação em mentira.
Apenas lembra que documentários também dependem de escolhas de enquadramento, montagem e ponto de vista.
O filme possui aproximadamente 175 minutos e chega ao circuito americano em 16 de outubro.
A A24 disponibilizou publicamente informações sobre a produção e seu trailer, enquanto distribuidoras internacionais também começaram a organizar a circulação cinematográfica.
Um documentário que pode provocar perguntas desconfortáveis
O caso Theranos já recebeu ampla cobertura jornalística e diferentes adaptações audiovisuais.
You Can See Everything parece procurar outro caminho ao observar a relação entre uma figura pública e as pessoas encarregadas de registrá-la.
O resultado pode oferecer uma discussão interessante sobre documentário, confiança e os limites da observação.
Não é possível antecipar suas conclusões sem assistir à obra, mas o projeto já apresenta uma questão relevante para quem acompanha cinema documental: aproximar a câmera de uma pessoa não significa necessariamente compreender melhor aquilo que ela está disposta a mostrar.

Entre para comentar e avaliar
Crie sua conta para participar da comunidade do Fora do Quadro.
Entrar