A libertação de um país não significa automaticamente liberdade para todas as pessoas que vivem nele.

Mulher Desconhecida nasce justamente dessa contradição.

Na Dinamarca do pós-guerra, Marie trabalha como governanta e babá na casa de Christian, um viúvo rico com quem pretende se casar. A mudança representaria uma transformação completa de posição social, mas existe uma parte de sua história capaz de destruir essa possibilidade: durante a ocupação alemã, Marie teve um relacionamento com um soldado alemão.

Mulheres que tiveram relações desse tipo foram publicamente humilhadas após a guerra, muitas vezes tendo o cabelo raspado, roupas arrancadas e corpos marcados diante da comunidade.

May el-Toukhy coloca essa violência histórica no centro do filme.

O corpo feminino como território político

A diretora não está interessada apenas em saber se Marie conseguirá esconder seu passado.

A questão maior é por que o passado dela é tratado como crime moral por uma sociedade em que homens fizeram concessões, negócios e escolhas igualmente complexas durante a ocupação.

A diferença está no corpo.

Marie pode ser transformada publicamente em símbolo de traição porque a sexualidade feminina se torna um lugar no qual uma comunidade decide escrever suas próprias regras.

Mathilde Arcel carrega essa tensão e saiu de Veneza com a Volpi Cup de Melhor Atriz.

Dias depois da estreia, o filme levou também o Leão de Ouro.

Uma vitória particularmente simbólica

May el-Toukhy era a única mulher dirigindo sozinha um longa entre os 21 títulos da competição principal de Veneza.

Isso não significa que Mulher Desconhecida tenha vencido por causa dessa condição, mas torna difícil ignorar a ironia histórica de uma diretora solitária na seleção receber o maior prêmio do festival com um filme justamente interessado em mulheres apagadas, julgadas e silenciadas.

A produção também integra a programação da 50ª Mostra de São Paulo.

Para o público brasileiro, portanto, o Leão de Ouro deixa de ser uma notícia distante e ganha uma oportunidade concreta de descoberta.

Mulher Desconhecida fala de 1945.

O desconforto está em perceber quantos dos mecanismos usados para controlar corpos e reputações femininas continuam perfeitamente reconhecíveis.