Mortal Kombat nunca precisou ser elegante. A graça sempre esteve no choque entre uma mitologia levada a sério demais e uma violência tão absurda que deixa de buscar realismo. O primeiro filme entendia partes dessa equação, mas parecia constrangido sempre que precisava assumir o prazer de ser uma adaptação de um jogo em que arrancar uma coluna vertebral pode funcionar como ponto de exclamação. Mortal Kombat II corrige essa hesitação. Não se torna subitamente um grande drama, porém aprende a entrar em cena sem pedir desculpas pelo próprio mau gosto.
Simon McQuoid volta à direção com uma noção mais clara de ritmo e, principalmente, de legibilidade. As lutas não servem apenas para interromper a exposição: são o lugar em que cada personagem revela personalidade. Liu Kang se movimenta de maneira diferente de Kitana, Shao Kahn precisa ocupar o quadro como uma força física e Johnny Cage transforma combate em performance. A sequência continua carregando personagens demais, mas agora ao menos compreende que reconhecê-los não basta; é preciso fazê-los lutar como as figuras que o público conhece.
Johnny Cage encontra o tom que faltava
Karl Urban é a melhor novidade porque não interpreta Johnny Cage como alguém de fora encarregado de ironizar o universo. Ele acredita na própria importância com uma convicção quase comovente. A piada não está em Cage considerar tudo ridículo, mas em imaginar que qualquer arena, dimensão ou ameaça existe para recebê-lo. Urban dosa arrogância e insegurança sem transformar o personagem numa máquina de frases prontas.
Essa presença resolve um problema tonal do longa anterior. Mortal Kombat precisa de humor, mas perde força quando a comédia parece comentar a franquia em vez de participar dela. Cage permite rir de dentro. Seu narcisismo funciona porque encontra personagens que não têm paciência para alimentá-lo e porque, quando a luta começa, o filme não precisa fingir que ele é apenas alívio cômico.
O restante do elenco se beneficia dessa segurança. Kitana e Jade ganham presença para além do reconhecimento imediato, enquanto Shao Kahn oferece a ameaça corporal necessária a uma história organizada em torno de um torneio. Nem todos recebem o mesmo espaço, e alguns desaparecem por longos períodos, mas existe uma dinâmica de grupo mais viva do que a coleção de entradas e saídas do filme anterior.
Violência com gramática própria
Os Fatalities funcionam melhor não apenas por serem mais sangrentos. McQuoid aprende a construir expectativa, a mostrar a geografia da luta e a guardar o impacto grotesco para o momento certo. O exagero nasce da encenação, não de um efeito digital jogado sobre uma sequência confusa. Há peso nos golpes, pausa antes da mutilação e uma consciência de que o público precisa entender o que aconteceu para que a violência tenha graça.
O desenho de produção também parece menos genérico. Arenas, armas e figurinos carregam a iconografia dos jogos sem a aparência de objetos colocados em cena apenas para serem reconhecidos. A trilha e o desenho de som ajudam a vender cada confronto como evento, ainda que o filme às vezes confunda volume com intensidade.
É quando ninguém está lutando que a estrutura volta a mostrar suas limitações. Jeremy Slater administra mitologia, alianças, rivalidades e preparação para o torneio como quem tenta manter muitas barras de energia visíveis ao mesmo tempo. Algumas conversas existem apenas para deslocar personagens até a próxima arena. Outras sugerem conflitos emocionais que a montagem abandona antes de adquirirem peso. A trama cumpre sua função, mas raramente surpreende pela maneira como chega ao combate seguinte.
Uma vitória imperfeita, mas finalmente consciente
Essa fragilidade impede que as derrotas e vitórias tenham a força dramática que o espetáculo procura. Mortal Kombat II quer que determinados confrontos representem destino, lealdade ou vingança, mas nem sempre dedica tempo suficiente às pessoas que carregam essas palavras. O filme é mais convincente quando assume a simplicidade: dois lutadores entram, uma rivalidade se torna física e alguém precisa sair da arena.
Ainda assim, existe diferença entre uma narrativa simples e uma produção sem identidade. Desta vez, a identidade está em toda parte. O filme é colorido, violento, barulhento e genuinamente divertido quando confia em sua falta de vergonha. Karl Urban entende a piada, as lutas têm clareza e o universo deixa de parecer uma introdução eterna para finalmente se comportar como Mortal Kombat.
Não é a adaptação definitiva que transforma o jogo em grande cinema. É algo mais honesto: uma sequência que reconhece o que a franquia faz bem, melhora a maneira de filmar esse prazer e aceita que uma coluna vertebral arrancada pode ser, naquele mundo, uma forma perfeitamente válida de pontuação. Para Mortal Kombat, isso já representa uma vitória.

Entre para comentar e avaliar
Crie sua conta para participar da comunidade do Fora do Quadro.
Entrar