A primeira temporada de Matéria Escura partia de uma fantasia que quase qualquer pessoa consegue compreender sem precisar pensar em física quântica: como seria a vida se eu tivesse escolhido diferente?
Outro trabalho, outro relacionamento, outra cidade, outra versão de si mesmo.
A Caixa transformava essa curiosidade em mecanismo de ficção científica e obrigava Jason Dessen a atravessar diferentes possibilidades da própria existência enquanto tentava voltar para a família.
O perigo de uma segunda temporada estava justamente aí.
Depois de encontrar a realidade que desejava, para onde a história poderia ir sem simplesmente repetir a mesma pergunta?
A resposta aparece ao transformar escolha em obsessão.
O multiverso deixa de ser possibilidade e vira vício
Jason sabe que existem outras realidades.
Isso muda tudo.
A pessoa que nunca conheceu outra possibilidade pode conviver com arrependimento imaginando aquilo que teria acontecido. Jason possui algo muito mais perigoso: confirmação.
Ele sabe que outra vida existe.
A segunda temporada trabalha com essa consciência de maneira mais interessante quando percebe que acesso infinito a possibilidades não significa liberdade infinita. Pelo contrário, pode tornar satisfação quase impossível.
Se há sempre outro mundo em que alguma coisa aconteceu melhor, por que permanecer neste?
Daniela começa a perceber a mudança, enquanto a relação entre os dois passa a carregar uma tensão que não depende apenas de ameaças externas. Jennifer Connelly encontra muito espaço nessa desconfiança e impede que a série se transforme exclusivamente numa experiência sobre Jason.
Alice Braga e Jimmi Simpson também ganham um percurso próprio através de Amanda e Ryan, permitindo que a ideia da Caixa deixe de pertencer apenas a uma família.
Ficção científica funciona melhor quando a tecnologia complica um sentimento simples
Matéria Escura nunca foi especialmente interessante porque possui universos paralelos.
O conceito funciona porque transforma insegurança, arrependimento e desejo em espaço físico.
Blake Crouch entende isso e, na segunda temporada, a série começa a perguntar não apenas qual vida alguém escolheria, mas o que a existência de alternativas faria com a capacidade de valorizar qualquer escolha.
É uma questão muito humana para uma produção visualmente interessada em coisas impossíveis.
A temporada ainda está em exibição, então qualquer conclusão definitiva seria precipitada. O sexto episódio chegou em 2 de outubro e a temporada segue até o fim do mês.
Até aqui, porém, existe uma expansão bastante coerente.
A primeira temporada perguntava se Jason conseguiria voltar para casa.
A segunda parece cada vez mais interessada em descobrir se alguém capaz de abrir infinitas portas ainda consegue entender o significado de ficar.

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