Tom Cruise passou as últimas décadas aperfeiçoando uma persona cinematográfica baseada em controle.
Seus personagens correm, pilotam, calculam riscos e atravessam situações aparentemente impossíveis com uma competência quase sobre-humana. Mesmo quando tudo ao redor entra em colapso, existe a expectativa de que Cruise encontrará alguma maneira de resolver.
Digger começa justamente retirando essa segurança.
No novo filme de Alejandro González Iñárritu, Cruise interpreta Digger Rockwell, um poderoso magnata do petróleo envolvido numa catástrofe ambiental e desesperado para convencer o mundo de que também pode ser responsável por salvá-lo. A produção estreou no Brasil em 1º de outubro, tem 2h09 de duração e reúne ainda Riz Ahmed, Sandra Hüller, John Goodman, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons. Iñárritu dirige e assina o roteiro ao lado de Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman.
É uma escala enorme colocada a serviço de uma ideia muito desagradável: alguém pode causar um desastre e ainda assim tentar transformar a reparação desse desastre em narrativa sobre a própria grandeza.
Tom Cruise finalmente encontra um personagem que não consegue controlar tudo
A transformação física do ator foi parte central da divulgação.
Cruise aparece com próteses, maquiagem e uma aparência deliberadamente distante da imagem de astro de ação que construiu. Sandra Hüller chegou a contar que inicialmente não reconheceu o colega caracterizado no set.
Mas o elemento mais importante não está simplesmente no rosto diferente.
Digger Rockwell permite que Cruise use sua energia habitual de outra maneira.
A obsessão pelo controle continua presente, mas agora pode ser observada como defeito. A confiança se aproxima da arrogância, a necessidade de agir se torna compulsão e a ideia de salvar o mundo fica contaminada pela necessidade de também salvar a própria reputação.
Iñárritu descreveu o projeto como uma história interessada no absurdo de uma realidade cada vez mais difícil de distinguir da ficção. Em entrevistas de lançamento, ele e Cruise falaram sobre a mistura deliberada de humor, drama e espetáculo e sobre a intenção de construir um personagem diferente daqueles normalmente associados ao ator.
O resultado não poderia ter sido recebido de maneira mais apropriada.
Digger dividiu a crítica quase ao meio.
Um filme que provoca exatamente o tipo de discussão que parece desejar
No Rotten Tomatoes, a aprovação crítica ficou em torno de 51%, enquanto a avaliação do público foi consideravelmente mais positiva. Críticos elogiaram a ambição, a performance de Cruise e o trabalho visual, enquanto outros apontaram excesso, falta de sutileza e uma sátira convencida demais da própria inteligência.
Iñárritu respondeu à divisão reconhecendo que não considera o filme perfeito e deixando claro que prefere uma reação forte, mesmo negativa, a uma resposta indiferente. O diretor descreveu Digger como uma obra construída para provocar, e não como algo pensado para agradar uniformemente ao público.
Essa posição combina com sua filmografia.
Birdman e O Regresso já demonstravam pouco interesse em desaparecer atrás da narrativa. Iñárritu gosta de tornar direção perceptível, e Digger amplia essa característica com a colaboração de Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia responsável por imagens que trabalham a escala do desastre ao mesmo tempo em que observam a figura grotesca no centro dele.
O filme parece querer que o público perceba sua construção.
Para algumas pessoas, isso será parte do prazer. Para outras, o principal motivo de rejeição.
Poder, desastre e a necessidade de controlar a narrativa
Existe uma ideia especialmente contemporânea em Digger.
Rockwell não precisa apenas resolver aquilo que provocou. Precisa controlar a maneira como sua tentativa de resolver será percebida.
Isso transforma reputação em parte da própria catástrofe.
Vivemos numa cultura em que empresas, bilionários e figuras públicas conseguem responder a crises através de campanhas, vídeos, declarações e rebranding quase na mesma velocidade em que os acontecimentos se desenvolvem. A linha entre ação e comunicação deixa de ser clara porque cada gesto já nasce acompanhado pela consciência de como será interpretado.
Digger parece interessado exatamente nesse espaço.
O magnata precisa agir, mas cada ação também é apresentação.
A pergunta, então, deixa de ser apenas se ele conseguirá reparar o dano.
Passa a ser se alguém tão acostumado a transformar tudo em extensão de si mesmo consegue fazer alguma coisa que não seja, no fim, sobre ele.
É provavelmente por isso que Digger já se tornou um dos filmes mais discutidos do início de outubro.
Um filme com 51% de aprovação pode parecer, em números, menos bem-sucedido do que muitos outros lançamentos do ano. Mas existe uma diferença entre consenso e relevância.
Digger talvez não consiga convencer todo mundo.
Pelo menos parece incapaz de passar despercebido.

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