Existe uma tendência recorrente em grandes filmes de ficção científica de usar ciência como decoração para uma história que, no fundo, poderia funcionar sem ela. Project Hail Mary, lançado no Brasil como Devoradores de Estrelas, escolhe outra direção.

Aqui, compreender um problema é parte fundamental da aventura.

O longa estreou nos cinemas brasileiros em 19 de março de 2026 e adapta o romance de Andy Weir, autor também responsável pelo livro que originou Perdido em Marte. Ryan Gosling interpreta Ryland Grace, professor de ciências que acorda sozinho numa nave a anos-luz da Terra sem compreender inicialmente quem é ou por que está ali. Phil Lord e Christopher Miller dirigem a partir de roteiro de Drew Goddard.

Essa combinação de nomes ajuda a explicar por que o filme consegue transitar com tanta facilidade entre tensão, humor e emoção.

Pensar é uma forma de ação

Ryland Grace não resolve seus problemas porque possui uma arma melhor ou porque descobre repentinamente uma habilidade escondida.

Ele observa.

Formula uma hipótese.

Testa.

Erra.

Tenta novamente.

Em termos cinematográficos, isso cria um desafio enorme. O processo científico pode ser intelectualmente estimulante, mas filmar alguém pensando dificilmente parece a definição tradicional de espetáculo.

Lord e Miller transformam a descoberta em movimento.

Quando um experimento pode decidir se alguém continuará vivo, uma equação passa a carregar urgência. Quando um erro possui consequência imediata, assistir alguém chegar a uma resposta pode produzir tensão semelhante à de uma perseguição.

Esse é um dos motivos pelos quais a presença de Ryan Gosling funciona tão bem.

O ator consegue tornar o raciocínio visível sem precisar transformar Grace num gênio inacessível. Há humor na frustração, surpresa quando alguma coisa funciona e um tipo de vulnerabilidade que impede o personagem de parecer uma máquina de respostas corretas.

Os próprios diretores disseram que viam Gosling como alguém capaz de utilizar ao mesmo tempo humor, dramaticidade e a presença de um astro clássico de cinema, características especialmente importantes num filme em que ele passa longos períodos sustentando a atenção do público praticamente sozinho.

Andy Weir e a dificuldade de transformar Rocky em cinema

A adaptação também precisava resolver um dos elementos mais particulares do livro: Rocky.

Sem entrar em detalhes que estraguem a descoberta para quem ainda não assistiu, a presença de uma forma de vida completamente diferente de Grace transforma Devoradores de Estrelas numa história sobre comunicação.

Andy Weir participou do processo de adaptação e discutiu publicamente algumas das preocupações envolvidas em levar Rocky para a tela, além das mudanças necessárias entre romance e filme. Em uma conversa publicada pela Penguin Random House, o escritor explicou seu envolvimento no projeto e os desafios específicos de construir o personagem cinematograficamente.

Essa relação se torna o elemento que impede o longa de ser apenas um exercício sobre ciência.

Grace pode calcular distâncias, testar substâncias e resolver problemas físicos, mas existe uma coisa muito mais difícil acontecendo ao mesmo tempo: compreender alguém que não compartilha sua língua, seu corpo ou sequer as mesmas condições biológicas.

A inteligência do filme aparece quando ele percebe que ciência e comunicação não são assuntos separados.

Ambas dependem de observação, tentativa e disposição para admitir que você ainda não entende alguma coisa.

Um blockbuster otimista em uma época particularmente cínica

Devoradores de Estrelas também chama atenção pelo pouco interesse em cinismo.

Existe uma ameaça gigantesca e a humanidade está diante de um problema existencial, mas o filme continua acreditando que curiosidade, cooperação e conhecimento possuem algum valor.

Isso pode parecer óbvio, mas não é.

Boa parte da ficção científica contemporânea utiliza instituições, tecnologia e descobertas como fontes naturais de desconfiança. Aqui, a ciência não é apresentada como garantia de que tudo ficará bem, mas como ferramenta para que alguém possa continuar tentando.

A recepção foi extremamente positiva. O filme chegou a cerca de 95% de aprovação entre críticos e público no Rotten Tomatoes, enquanto usuários do AdoroCinema mantiveram média superior a 4/5.

O entusiasmo ajuda a demonstrar que ainda existe espaço para ficção científica de grande orçamento que não trate o espectador como alguém incapaz de acompanhar uma ideia científica ou um problema complexo.

Devoradores de Estrelas tem naves, escalas astronômicas e um risco envolvendo toda a humanidade, mas talvez sua imagem mais poderosa seja muito menor.

Duas inteligências diante de algo que nenhuma delas consegue resolver sozinha.