Existe um momento recorrente nas histórias de Harlan Coben em que uma família aparentemente comum deixa de ser aquilo que acreditávamos estar observando. Não acontece necessariamente através de uma grande revelação, porque geralmente basta alguém desaparecer, uma fotografia aparecer no lugar errado ou uma informação simples deixar de combinar com tudo aquilo que já sabíamos.
Custe o que Custar começa exatamente nesse território.
Simon Greene, interpretado por James Nesbitt, acredita conhecer a própria família até que Paige, sua filha mais velha, desaparece. Quando finalmente a encontra, a situação está longe daquilo que imaginava. Paige está vulnerável, envolvida com drogas e acompanhada por um homem que Simon imediatamente identifica como parte do problema. A tentativa desesperada de recuperar a filha termina em violência, e o que poderia ser apenas uma história sobre um pai procurando uma jovem desaparecida começa a se expandir para algo muito maior. A minissérie possui oito episódios, adapta o romance Run Away, de 2019, e conta ainda com Ruth Jones, Minnie Driver, Alfred Enoch e Lucian Msamati no elenco.
A partir daí surge aquilo que a parceria entre Coben e Netflix já transformou quase em gênero próprio. Uma pessoa desaparecida se conecta a outra, uma família descobre que guardava segredos dentro de outros segredos e cada resposta abre uma porta que provavelmente deveria ter permanecido fechada.
A diferença está em como Custe o que Custar consegue sustentar esse mecanismo.
James Nesbitt dá humanidade ao exagero
Harlan Coben nunca demonstrou grande preocupação em manter suas histórias dentro dos limites daquilo que aconteceria com facilidade no mundo real. Coincidências se acumulam, personagens escondem informações por tempo demais e acontecimentos que inicialmente pareciam completamente independentes acabam descobrindo algum caminho até o mesmo centro.
Isso pode ser frustrante quando o elenco não consegue fazer o espectador acreditar emocionalmente naquilo que talvez nunca acreditasse racionalmente.
James Nesbitt resolve boa parte desse problema.
Seu Simon não se comporta como um detetive brilhante que está sempre um passo à frente da história. Ele é um pai assustado, frequentemente impulsivo e capaz de tomar decisões ruins justamente porque não possui distância suficiente para observar o que está acontecendo. Essa vulnerabilidade torna mais fácil acompanhar uma narrativa que vai ficando cada vez mais complicada, porque Nesbitt preserva alguma coisa simples no centro dela: um homem quer encontrar a filha.
Ruth Jones encontra outro ritmo como Elena Ravenscroft, investigadora particular cuja trajetória começa a cruzar o desaparecimento de Paige. A personagem funciona especialmente bem porque consegue introduzir alguma leveza sem reduzir a gravidade das situações ao redor, algo importante numa série em que praticamente todo episódio adiciona uma nova camada de violência, trauma ou segredo.
A máquina de reviravoltas continua funcionando
Danny Brocklehurst, parceiro frequente de Coben nas adaptações britânicas, conhece exatamente o tipo de televisão que está construindo. Cada episódio precisa terminar alguns minutos depois do ponto em que uma pessoa sensata provavelmente deveria ir dormir.
É uma engenharia bastante específica.
Informações são distribuídas com precisão suficiente para responder uma pergunta enquanto duas outras aparecem, personagens aparentemente secundários recebem importância inesperada e linhas narrativas que parecem independentes começam lentamente a se aproximar.
Essa estrutura explica por que as adaptações de Coben funcionam tão bem como maratona, mas também revela sua principal limitação. Quando tudo precisa esconder alguma coisa, eventualmente o próprio segredo deixa de ser surpresa.
Custe o que Custar consegue resistir a isso durante boa parte dos oito episódios porque a série possui personagens suficientemente fortes para não depender apenas do próximo choque.
Nem sempre consegue.
Existem momentos em que a narrativa acrescenta mais uma conexão quando talvez fosse melhor permanecer um pouco mais tempo com a anterior, e certas decisões precisam ser aceitas com uma generosidade que o roteiro nem sempre merece.
Ainda assim, a série mantém energia.
Uma recepção que explica o fenômeno Coben
A distância entre crítica e público é curiosa. Custe o que Custar aparece com 83% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, enquanto o índice do público está consideravelmente abaixo, em 39%. No Metacritic, a avaliação ficou em 59, indicando uma recepção mais dividida.
É uma contradição interessante porque a série representa muito bem aquilo que as adaptações de Coben se tornaram.
Não é uma televisão construída para ser contemplada lentamente durante meses. É uma televisão construída para criar urgência.
O espectador percebe que algumas coincidências são convenientes, reconhece que determinados personagens tomam decisões necessárias para que a trama continue e talvez até enxergue a próxima reviravolta chegando. Mesmo assim, aperta o próximo episódio.
Isso não é pouca coisa.
Custe o que Custar não reinventa Harlan Coben, e provavelmente nunca teve essa intenção. O que faz é refinar uma fórmula que Netflix e autor vêm desenvolvendo há anos, apoiando-se num elenco forte e numa história que continua encontrando novos espaços de tensão dentro da mesma pergunta.
Quanto de uma família continua sendo família depois que todas as versões cuidadosamente preservadas de sua história começam a desmoronar?

Entre para comentar e avaliar
Crie sua conta para participar da comunidade do Fora do Quadro.
Entrar