Poucos filmes chegam ao cinema acompanhados por uma história de bastidores tão perfeitamente alinhada à própria narrativa quanto Coyote vs. Acme.

Dentro do filme, Wile E. Coyote decide enfrentar a empresa responsável pelos produtos que passaram décadas explodindo, quebrando e falhando em suas mãos. Fora da tela, a produção também precisou enfrentar uma grande corporação depois que a Warner Bros. Discovery decidiu engavetá-la e considerar uma baixa fiscal em vez de lançá-la ao público.

O longa havia sido filmado em 2022 e chegou a ser tratado como um projeto que poderia nunca ser oficialmente exibido. Depois da reação de profissionais da indústria e fãs, os realizadores puderam buscar outro destino para o filme. A Ketchup Entertainment acabou adquirindo os direitos e levou Coyote vs. Acme aos cinemas em agosto de 2026. No Brasil, a estreia aconteceu em 27 de agosto.

A ironia é tão perfeita que parece ter sido escrita depois.

Não foi.

Um processo contra a ACME sempre esteve escondido dentro dos Looney Tunes

Wile E. Coyote passou décadas comprando produtos de uma mesma empresa apesar de praticamente todos terminarem em desastre.

Foguetes, catapultas, explosivos, imãs, patins e armadilhas sofisticadas chegam em caixas com o mesmo nome estampado. O personagem abre, monta e acredita novamente que desta vez será diferente.

A piada sempre esteve na repetição.

Coyote vs. Acme apenas faz a pergunta que ninguém precisava fazer enquanto assistia aos desenhos: quem seria legalmente responsável por tudo aquilo?

O roteiro transforma essa premissa num processo judicial e coloca Will Forte como Kevin Avery, advogado que se une ao Coiote para enfrentar a corporação ACME. John Cena interpreta Buddy Crane, advogado ligado à empresa, enquanto Dave Green dirige a mistura de live action e animação.

É uma ideia que poderia facilmente funcionar apenas como extensão de uma piada.

O filme encontra força quando percebe que existe algo mais interessante escondido nela.

Wile E. Coyote é um personagem definido pelo fracasso, mas também pela insistência. Toda tentativa termina mal e, ainda assim, ele retorna no episódio seguinte com outro plano.

Essa persistência adquire um significado diferente quando colocada diante de uma corporação que vende aquilo que continuará falhando.

Preservar a lógica de desenho animado era mais importante do que torná-la realista

Uma adaptação live action de Looney Tunes sempre corre o risco de tentar racionalizar demais um universo que depende justamente da ausência de determinadas regras.

O Coiote pode cair de um penhasco, ser esmagado por uma pedra ou explodir junto com um produto ACME e voltar poucos segundos depois. A violência não funciona como violência realista porque aqueles personagens existem dentro de outra relação com o corpo.

Coyote vs. Acme preserva essa lógica.

Isso permite que animação e atores reais ocupem o mesmo espaço sem que o desenho pareça estar pedindo desculpas por continuar sendo desenho.

A produção também recupera outros personagens dos Looney Tunes, mas evita construir toda sua identidade apenas sobre reconhecimento nostálgico. O Coiote continua sendo o centro porque sua história oferece algo que funciona independentemente da quantidade de referências ao redor.

A recepção reforçou essa percepção. O filme alcançou cerca de 96% entre críticos e 94% entre o público verificado no Rotten Tomatoes, além de avaliação de usuários acima de 4/5 no AdoroCinema.

A história do lançamento mudou a maneira de assistir ao filme

Não existe como separar completamente Coyote vs. Acme daquilo que aconteceu nos bastidores.

Will Forte falou publicamente sobre a frustração e a raiva depois de descobrir que o longa poderia ser descartado, enquanto Dave Green e parte da equipe passaram anos sem saber se o trabalho chegaria ao público. Houve até uma exibição descrita pelos envolvidos como uma espécie de “funeral” quando acreditavam que o projeto estava morto.

Quando o filme finalmente chega às salas, qualquer discussão sobre corporações tratando criatividade como item de planilha ganha uma camada que os roteiristas jamais poderiam ter planejado completamente.

É difícil imaginar publicidade melhor e, ao mesmo tempo, pior.

Coyote vs. Acme sobreviveu justamente ao tipo de decisão empresarial que sua história transforma em piada.

Há algo profundamente apropriado nisso.

Wile E. Coyote nunca foi interessante porque conseguia alcançar o Papa-Léguas. Ele é interessante porque o fracasso nunca foi suficiente para fazê-lo parar.

Por alguns anos, o próprio filme precisou aprender exatamente a mesma lição.