Existe uma versão muito fácil de Coração Selvagem que poderia ter virado apenas um grande filme de ação estrelado por Brad Pitt. Um veterano das Forças Especiais, um acidente aéreo, a natureza do Alasca e um cachorro de combate oferecem material suficiente para duas horas de perseguições, perigos e imagens espetaculares.

David Ayer escolhe algo um pouco mais interessante.

James Belmont, personagem de Pitt, e Odin, seu cão, ficam isolados depois de um acidente e precisam sobreviver num território em que praticamente tudo parece maior do que eles. A natureza não recebe personalidade de vilã porque não precisa. Frio, fome, distância e exaustão são perigos suficientes.

É justamente essa recusa em transformar cada obstáculo num inimigo que faz o filme respirar.

Brad Pitt precisa dividir a cena com o silêncio

Pitt passou a carreira inteira demonstrando uma habilidade curiosa para ser astro sem depender apenas da condição de astro. Aqui, ele trabalha num registro menos preocupado com carisma imediato e mais atento ao desgaste físico.

Belmont carrega experiência militar, mas isso não o transforma em alguém imune ao ambiente. O personagem sabe algumas coisas que aumentam suas chances de sobrevivência, enquanto continua sujeito ao medo, à dor e ao tipo de erro que se torna muito mais grave quando não existe ninguém por perto para corrigi-lo.

A relação com Odin impede que essa solidão se transforme num exercício puramente individual. Há responsabilidade dos dois lados, mesmo que o animal evidentemente não possa expressá-la da mesma maneira, e Ayer entende que não precisa humanizar excessivamente o cachorro para tornar esse vínculo emocional.

Odin continua sendo um cão.

É justamente por isso que funciona.

David Ayer encontra contenção onde normalmente procura impacto

O diretor de Fury e Esquadrão Suicida sempre demonstrou gosto por masculinidades colocadas sob pressão, mas Coração Selvagem retira boa parte da estrutura que geralmente acompanha seus personagens.

Não há um grupo inteiro de homens testando lealdade, hierarquia e coragem. Existe uma relação muito mais íntima, quase doméstica, deslocada para um ambiente extremo.

O filme também se beneficia de uma fotografia que respeita a dimensão do espaço. O Alasca precisa parecer grande porque os personagens precisam parecer vulneráveis diante dele, e a paisagem não funciona simplesmente como cartão-postal.

A recepção foi forte, com aprovação crítica acima de 80% e uma resposta do público ainda mais entusiasmada. Não é difícil entender por quê. Coração Selvagem possui a estrutura de um filme clássico de sobrevivência e não tenta esconder isso atrás de uma complexidade artificial.

Às vezes, o cinema não precisa desmontar um gênero para encontrar algo novo dentro dele.

Ayer coloca um homem e um cachorro diante de uma natureza indiferente, confia no vínculo entre os dois e permite que o filme encontre emoção sem implorar por ela.

Funciona.