Uma escritora procura inspiração observando discretamente os moradores de um prédio em frente ao seu apartamento. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia um exercício de curiosidade passa a interferir na maneira como ela compreende as relações entre aquelas pessoas.

Essa é a premissa de Contos Paralelos, novo filme de Asghar Farhadi que estreia nos cinemas brasileiros em 15 de outubro.

Isabelle Huppert interpreta Sylvie, autora em crise criativa que procura recuperar parte de seu prestígio através de um novo romance. O elenco também reúne Virginie Efira, Pierre Niney e Vincent Cassel.

Quando observar deixa de ser inocente

Farhadi construiu uma filmografia interessada em personagens que precisam lidar com decisões cujas consequências ultrapassam suas intenções originais.

Em filmes como A Separação e O Apartamento, pequenas escolhas colocam em movimento conflitos morais que se tornam progressivamente mais difíceis de resolver.

Contos Paralelos parece recuperar essa preocupação através de uma personagem cuja profissão depende de observar comportamentos humanos.

A questão se torna mais complicada quando a escritora deixa de apenas observar e começa a interferir nos acontecimentos.

A ficção como forma de poder

Escrever sobre alguém significa selecionar acontecimentos, construir relações e decidir quais informações serão oferecidas ao leitor.

Quando a pessoa retratada não sabe que se tornou personagem, essa escolha ganha uma dimensão ética particularmente delicada.

O filme apresenta uma oportunidade de discutir a diferença entre transformar experiências em ficção e utilizar outras vidas como material disponível.

A presença de Huppert oferece um centro interessante para uma história que depende de ambiguidades.

Contos Paralelos chega aos cinemas carregando questões sobre criação, intimidade e responsabilidade, num momento em que praticamente qualquer pessoa pode transformar acontecimentos da vida alheia em conteúdo público.