Cilada possui algo que imediatamente diferencia a produção de praticamente toda a coleção recente de Harlan Coben: Bariloche.

O cenário argentino não funciona apenas como substituição geográfica de uma história originalmente escrita em outro lugar. Lagos, montanhas, estradas e a sensação de uma comunidade suficientemente pequena para que diferentes vidas comecem a se cruzar criam uma textura que ajuda a série a encontrar alguma identidade própria dentro de uma fórmula extremamente reconhecível.

Soledad Villamil interpreta Ema Garay, jornalista investigativa que construiu reputação revelando criminosos capazes de escapar da Justiça. Quando uma adolescente desaparece e Leo Mercer, um homem respeitado com quem Ema desenvolveu uma relação pessoal, passa a ocupar o centro das suspeitas, trabalho e intimidade deixam de poder ser separados com facilidade.

A série possui seis episódios, é dirigida por Miguel Cohan e Hernán Goldfrid e se tornou a primeira adaptação latino-americana da obra de Coben para a Netflix. Alberto Ammann e Juan Minujín integram o elenco principal.

É um ponto de partida interessante porque coloca uma jornalista no centro de uma história sobre verdade.

O roteiro, porém, nem sempre parece perceber o quanto essa escolha poderia render.

Soledad Villamil merece uma série um pouco mais paciente

Ema trabalha justamente no território em que uma história de Harlan Coben costuma operar.

Ela coleta informação, decide quando acreditar numa fonte, tenta separar comportamento suspeito de evidência e precisa administrar a consequência pública de acusações capazes de destruir a vida de alguém.

Quando o homem colocado sob suspeita também invade sua vida pessoal, a série encontra uma tensão muito mais interessante do que simplesmente descobrir quem cometeu determinado crime.

Existe uma pergunta sobre credibilidade.

Se Ema acreditar em Leo, corre o risco de permitir que a relação pessoal contamine o trabalho. Se desconfiar dele, talvez esteja permitindo que a lógica de seu trabalho destrua alguém antes que existam respostas suficientes.

Villamil trabalha muito bem esse desconforto porque não interpreta Ema como jornalista infalível. Há confiança, experiência e também arrogância suficiente para que determinadas decisões carreguem consequências.

O problema aparece quando Cilada começa a abandonar gradualmente essa ambiguidade para alimentar a quantidade de acontecimentos necessária à reta final.

O mistério cresce mais rápido do que os personagens

A fórmula Coben possui uma qualidade bastante eficiente: existe sempre uma conexão a descobrir.

Também existe um risco evidente.

Quanto mais pessoas estão secretamente ligadas umas às outras, menor se torna o mundo da história.

Cilada sofre um pouco com isso.

Os primeiros episódios utilizam Bariloche de maneira muito interessante, sugerindo uma comunidade em que reputação circula rapidamente, relações antigas reaparecem e o desaparecimento de uma adolescente afeta pessoas que acreditavam estar distantes do problema.

Com o avanço da narrativa, porém, o desejo de reorganizar todas as peças começa a dominar o espaço que inicialmente pertencia às pessoas.

Algumas revelações funcionam porque mudam aquilo que sabemos sobre os personagens. Outras parecem existir principalmente porque uma minissérie de Harlan Coben precisa oferecer uma determinada quantidade de surpresas antes dos créditos finais.

É uma diferença pequena na estrutura e enorme na experiência.

Internacionalizar Coben continua sendo uma boa ideia

Cilada registra apenas 43% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes e cerca de 55% entre o público, uma recepção consideravelmente mais fria do que algumas adaptações recentes.

Ainda assim, existe algo importante na experiência.

A parceria da Netflix com Coben descobriu há alguns anos que seus romances não precisam permanecer presos aos Estados Unidos. Histórias originalmente ambientadas em Nova Jersey ganharam versões britânicas, espanholas, francesas e polonesas, e a mudança de país permite que um mesmo mecanismo narrativo produza atmosferas diferentes.

Bariloche oferece exatamente isso.

Cilada não está entre as adaptações mais precisas do autor, e sua necessidade de conectar todos os elementos enfraquece parte do drama que Soledad Villamil constrói.

Mas a série aponta para um caminho interessante.

Talvez a melhor maneira de impedir que Harlan Coben comece a parecer sempre a mesma história seja continuar permitindo que outras culturas encontrem novas maneiras de contá-lo.