Stranger Things encerra sua história apostando mais em sentimento do que em ruptura
CRÍTICACINEMA E TV
Lucas Pedrosa
1/12/20263 min ler


Divulgação/Netflix
⚠️ Atenção: esta crítica contém SPOILERS do final da série
Encerrar Stranger Things nunca foi apenas uma questão de amarrar pontas soltas. Desde que a série deixou de ser apenas uma aventura sobrenatural com crianças e se transformou em um épico serializado, o verdadeiro desafio passou a ser outro: como concluir uma história que cresceu mais do que o próprio mistério que a originou.
E a resposta dos irmãos Duffer, goste-se ou não, foi clara: Stranger Things termina olhando mais para seus personagens do que para o Upside Down.
A divisão em volumes: escolha narrativa ou sintoma de excesso?
A construção da última temporada em volumes não foi só uma decisão logística ou de marketing. Ela escancara um problema que a série carrega desde a terceira temporada: o volume da narrativa começou a competir com a própria história.
Tecnicamente, os volumes funcionam como atos bem definidos. Cada bloco tem clímax, consequência e respiro. O problema é que, em vários momentos, Stranger Things parece confundir grandiosidade com profundidade. O tempo extra raramente é usado para silêncio, subtexto ou observação, quase sempre ele vira mais ameaça, mais trilha, mais discurso explicativo.
Ainda assim, é impossível negar: quando a série acerta, ela usa esse tempo como poucas produções conseguem. O desenvolvimento emocional de Eleven, a exaustão visível de Hopper e a maturidade forçada do grupo deixam claro que o tempo passou dentro e fora da tela.
O Upside Down nunca foi o verdadeiro vilão
Tecnicamente, o último arco fecha a mitologia de forma competente. As regras do Upside Down são esclarecidas, Vecna cumpre sua função simbólica e a ameaça deixa de ser abstrata. Mas aqui mora uma escolha ousada e divisiva.
O vilão final nunca foi o monstro.
Sempre foi o trauma.
A série opta por transformar o conflito sobrenatural em extensão emocional dos personagens. Isso eleva o discurso, mas também diminui o impacto do perigo físico. Em alguns momentos, o fim do mundo parece menos urgente do que uma conversa pendente, e isso vai frustrar quem esperava um encerramento mais brutal ou imprevisível.
Atuação e direção: onde a série se despede com dignidade
Se o roteiro às vezes se apoia demais na nostalgia e no discurso direto, a direção e o elenco compensam com entrega absoluta.
Millie Bobby Brown encerra a jornada de Eleven sem precisar provar mais nada. Sua atuação no último volume é contida, cansada e consciente, exatamente como a personagem deveria estar. David Harbour traz um Hopper menos heróico e mais humano, enquanto Winona Ryder transforma Joyce em um símbolo silencioso de resistência emocional.
A direção entende quando não precisa acelerar, e os melhores momentos do final da série não são os de ação, mas os de pausa. Olhares, despedidas, silêncios. Stranger Things finalmente confia no vínculo que construiu.
O final: seguro demais ou fiel demais?
Aqui está o ponto mais delicado.
O final de Stranger Things não é revolucionário.
Ele não quebra expectativas.
Ele não subverte sua própria mitologia.
E talvez isso seja proposital.
A série escolhe encerrar sua história de forma coerente com o que sempre foi: uma carta de amor à amizade, à memória e à perda da inocência. Não há choque gratuito, nem reviravolta vazia. Há fechamento.
Para alguns, isso vai soar como acomodação. Para outros, como respeito.
O que fica depois que a luz apaga
Stranger Things termina como começou: menos interessada em monstros do que em pessoas. Seu maior mérito nunca foi o terror, mas a capacidade de fazer o público crescer junto com seus personagens.
Tecnicamente irregular, emocionalmente honesta, narrativamente ambiciosa e às vezes grande demais para si mesma, a série encerra sua trajetória sem trair sua essência.
No fim, Stranger Things não tentou reinventar a televisão. Tentou se despedir de quem esteve ali desde o começo. E isso, para uma série desse tamanho, já diz muita coisa.
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